A jovem Anne Frank escreveu em seu diário toda a tensão que a família Frank sofreu durante a Segunda Guerra Mundial. Ao fim de longos dias de silêncio e medo aterrorizante, eles foram descobertos pelos nazistas e deportados para campos de concentração. Anne inicialmente foi para Auschwitz, e mais tarde para Bergen-Belsen. Seu diário destaca sentimentos, aflições e pequenas alegrias de uma vida incomum, problemas da transformação da menina em mulher, o despertar do amor, a fé inabalável na religião e, principalmente, revela a rara nobreza de um espírito amadurecido no sofrimento. Um retrato da menina por trás do mito.
Link para acessar. Um piloto cai com seu avião no deserto e ali encontra uma criança loura e frágil. Ela diz ter vindo de um pequeno planeta distante. E ali, na convivência com o piloto perdido, os dois repensam os seus valores e encontram o sentido da vida. Com essa história mágica, sensível, comovente, às vezes triste, e só aparentemente infantil, o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry criou há 70 anos um dos maiores clássicos da literatura universal. Não há adulto que não se comova ao se lembrar de quando o leu quando criança. Trata-se da maior obra existencialista do século XX, segundo Martin Heidegger.
Totalmente diferente daquilo que se está acostumado a ler, este livro em forma de quadrinhos do consagrado escritor F. Scott Fitzgerald traz a divertida história de Benjamin Button, passada nos anos 1920, que tem início quando a senhora Button se dirige à maternidade – fato atípico para a época – para dar à luz o pequeno Ben. Todavia, aquilo que deveria ser motivo de orgulho e felicidade para a família transforma-se num verdadeiro pesadelo, uma vez que, ao contrário do que acontece em qualquer família normal, o pequeno Benjamin vem ao mundo não como um pequeno e frágil bebê, mas como um senhor de 70 anos! Deste dia em diante, a vida da família Button nunca mais seria a mesma, a começar pela vida do próprio Benjamin, que passa a sofrer as conseqüências deste inexplicável fenômeno. Narrado de forma leve, divertida, mas sem perder o toque nostálgico e comovente, O Curioso Caso de Benjamin Button vem revolucionar o universo das histórias em quadrinhos e trazer o que há de melhor em termos de literatura
Em princípios de maio de 2002, uma impressionante comissão de críticos
literários de várias partes do mundo escolheu o livro Dom Quixote de La
Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), a partir
de 1602, como a melhor obra de ficção de todos os tempos. Ao tempo em
que narrava os feitos do Cavaleiro da Triste Figura em ritmo dos
romances da cavalaria, Cervantes enervado com o sucesso daquele tipo de
gênero literário junto ao grande público, realizou uma das maiores
sátiras aos preceitos que regiam as histórias fantasiosas daqueles
heróis de fancaria.
Agonia do cavaleiro da triste figura
O Cavaleiro da Triste Figura e Rocinante
"Todas as coisas humanas têm dois aspectos... para dizer a verdade
todo este mundo não é senão uma sombra e uma aparência; mas esta grande e
interminável comédia não pode representar-se de um outro modo. Tudo na
vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos nos
assegurar de nenhuma verdade." Erasmo – Elogio da Loucura, 1509
No
final de uma caçada às lebres, ele sentiu-se exausto. Pediu que o
levassem ao leito. Dom Quixote percebeu a presença da morte. Logo os
amigos chamaram um médico que, pegando-lhe o pulso, recomendou com a
rude franqueza dos castelhanos que tratasse de salvar a alma, porque o
corpo era de pouca valia. Então algo poderoso ocorreu. Aos brados o
moribundo disse ter recuperado o juízo, livrara-se das desgraçadas
leituras que fizera sobre os feitos dos cavaleiros. Disse abominar
Amadis de Gaula, o espadachim de fantasia que tanto o inspirara até não
muito. Esperou então, sereno, a morte para livrar-se daquelas
assombrações da literatura que tanto infernizaram a sua vida. Em
tempos bem anteriores, ainda que magro de doer, dispunha de saúde
suficiente para lançar-se pelo mundo afora. Até os cinqüenta anos vivera
com criada, sobrinha e um rapaz arrieiro, numa fazendola na província
da Mancha, uma espécie de brejo-seco do Reino de Castela, na Espanha.
Desocupado, empobrecido, passara os dias lendo os feitos dos heróis
da cavalaria. Até que um dia, conta Cervantes, de tanta leitura, seus
miolos ressecaram. Imitando então aquela brava gente que povoava os
seus sonhos, cismou em querer consertar as coisa tortas e desfazer os
agravos do mundo. Mandou pôr uma sela em Rocinante, seu maltratado
pangaré, calçou-se com as velhas armas dos seus antepassados, um escudo,
e saiu a trote atrás de façanhas que lhe dessem renome. E como ele
próprio esperava: —Dichosa edad y siglo dichoso aquel adonde
saldrán a luz las famosas hazañas mías, dignas de entallarse en bronces,
esculpirse en mármoles y pintarse en tablas, para memoria en lo futuro.
(Feliz idade e feliz século aquele onde sairão à luz as minhas
famosas façanhas, dignas de entalhar-se em bronzes, esculpidas em
mármores e pintadas em telas para a memória do futuro) (D.Quixote: II Capítulo)
Metido em aventuras mil
Campo de Criptana com seus moinhos, a quem Quixote enfrentou com sua lança
Aventuras e desassossegos de toda a ordem é o que não lhe faltaram
pelas andanças pelo ermos de Castela. Além de fantasiar uma dama só sua,
uma pobre camponesa que ele chamou de Dulcinéia del Tomboso, teve a
felicidade de encontrar um homem da sua aldeia, o gorducho Sancho Pança,
um lavrador, logo promovido a escudeiro, e que, entre outras coisas,
tentou inutilmente inculcar em Dom Quixote algum princípio de realidade
que fosse. Sim, porque o nosso cavaleiro vivia oscilando em perpetrar
as loucuras desaforadas de Roldão ou mergulhar nas melancolias de
Amadis, seus modelos. De longe ou de perto, o contraste espantoso entre
o Cavaleiro da Triste Figura, como Dom Quixote mesmo se chamou, magro e
alto, e o seu valet, o pequenino e roliço Sancho, montando em seu
burrico, incendiou a imaginação de todos. Maldizia o tempo todo a
época que lhe coubera viver. A pólvora e o chumbo, discursou ele,
liquidaram com os cavaleiros. Um disparo de longe, arte de um covarde,
destroçava a vida de um bravo. Surras “ da fementida canalha”, também
não lhe faltaram. Certa vez, em pleno campo, encontrando uma fila de
bandidos atados, conduzidos por alguns policiais, resolveu espantar a
lei. Engalfinhou-se com os guardas que fugiram espavoridos dos espadaços
daquele doido. Soltos, os foras-da-lei, além de surripiarem-lhe os
pertences, aplicaram-lhe uma sova de dar dó. Comentário de Dom Quixote:
“aos cavaleiros andantes não pertence averiguar se os afligidos,
acorrentados e opressos...vão pelas estradas por suas culpas, ou por
serem desgraçados... só lhe cabia ajudá-los como necessitados”. Nem na
dor das imerecidas porretadas ele se emendava!
Estrutura e prosa da obra
As confusões de Don Quixote (gravura de William Hogarth)
Dom Quixote de La Mancha, a maravilha literária de Cervantes, narrado na
mais fina prosa castelhana, é composta de 126 capítulos de sabedoria,
amizade, enternecimento, encantamentos, loucuras e divertimento,
divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615.
Monumento que Cervantes começou a erguer com pena e tinta, "no silêncio
do esquecimento", encarcerado em Sevilha, em 1602, por mesquinharias.
Obra que mais de 100 críticos literários, vindos de todas as partes,
recentemente reunidos, indicaram como o melhor livro do mundo. Numa
das suas digressões, Cevantes deu para comparar a vida de soldado, que
ele foi, com a de escritor, que ele terminou sendo, concluindo que
aquele ofício só lhe dera dor de cabeça, vigílias, vazios de fome e
padecimentos mil. Todavia, ao contrário de Shakespeare, seu
contemporâneo, era consciente de que criara uma obra-prima, algo
verdadeiramente extraordinário. Enquanto isso, numa desconhecida aldeia
da Mancha, o corpo do velho fidalgo maluco recebia as exéquias. Não se
enganem, não o enterraram não. Basta a qualquer leitor abrir a primeira
página do Dom Quixote para ver que, erguendo a espada, o soberbo doido
está ali vivíssimo, pronto para sair a assombrar o gigante Briareu e
pôr a correr as injustiças.
No último dia 8, um rapaz de 18 anos foi preso em Jales (585 km a
noroeste de São Paulo) sob suspeita de ter assaltado um posto de
combustíveis e uma farmácia, levando R$ 1.500. Ao saber do caso, já na
delegacia, o pai do jovem, o ajudante de pedreiro Dorivaldo Porfírio de
Lima, 44, decidiu procurar as duas supostas vítimas para ressarcir o
prejuízo. Sem recursos, assinou promissória para parcelar e pagar a
dívida.
*
Eu nunca havia pisado em uma delegacia antes, graças a Deus. Só passava na frente.
Meu filho caçula Bruno estava jogando bola lá perto de casa quando um
policial veio e o prendeu. Eu estava na casa da minha irmã. Não estava
trabalhando porque está difícil arrumar serviço como ajudante de
pedreiro --tem dia que tem, mas passa muitos dias sem ter.
Minha mulher ligou: "Estão prendendo o Bruno, nosso filho". Pensei: "Vou
direto na delegacia saber o que é isso". Porque meu filho é
trabalhador, pedreiro como eu. Ajuda a pagar as contas. E nunca tinha
visto nada estranho em casa, como dinheiro, arma, droga.
Eu e minha mulher sabíamos que ele usava maconha, e desconfiávamos que
tinha alguma outra droga, porque ele chegava às vezes meio irritado. Ele
contou para a gente que usava, pediu para ser internado. Estávamos
arrumando uma comunidade [terapêutica] aqui com a Igreja Católica, mas
aí ele foi preso.
No caminho da delegacia, pensei que talvez poderia não ser nada. Ele
estava trabalhando certinho, mas sempre tem as más companhias.
Quando cheguei, me mostraram as imagens dele [captadas pelas câmeras de
segurança do posto e da farmácia]. Fiquei meio em dúvida, porque nunca
tinha visto aquelas roupas. Mas ficaram falando lá que foi ele, foi ele,
então a gente fica quieto. E não o vi ainda desde que foi preso [em 8
de outubro].
Falaram o valor roubado por ele e um colega: R$ 600 da farmácia e R$ 900 do posto. Era bastante.
Veio na hora a vontade de devolver o dinheiro. Quando o filho não
presta, os pais abandonam, nem vão atrás. Mas corri atrás para mostrar
caráter, o que é certo. E porque ele é trabalhador, não é vagabundo. A
avó do outro rapaz [suspeito de participar dos roubos] me disse que os
pais nem vão atrás do menino, que ele já não tem jeito.
No meu caso não. Não é porque é meu filho, mas eu acho que ele tem conserto.
No dia seguinte fui ao posto e perguntei quem era o dono. O próprio
respondeu, é até conhecido meu. Contei o acontecido com o Bruno. "Era
teu filho? Não acredito", ele disse. E eu: "Se meu filho fez isso, quero
parcelar e pagar". Ele não acreditou, ficou surpreso com a honestidade.
Eu disse: "Acredite porque, se for meu filho, vou pagar porque ele é
trabalhador".
Reproduçao/TV Globo
O ajudante de pedreiro Dorivaldo Porfírio de Lima, 44, quer devolver dinheiro que o filho teria roubado de dois comércios
Pedi para parcelar os R$ 900 em promissórias de R$ 90. O ganho da gente é
pouco, não chega ao fim do mês. A diária [de auxiliar de pedreiro] é R$
70, mas às vezes você consegue trabalhar dois dias na semana, depois
para.
Fiz a mesma coisa na farmácia. O dono falou que como foram dois
envolvidos no roubo, ele dividiria os R$ 600 em R$ 300. Mas soube depois
que um comerciante viu a história na TV e pagou a conta.
Se não der para pagar os R$ 90 do posto no fim do mês, eu pago R$ 40, R$
50, o que der. Se hoje em dia a gente andando no caminho certo já corre
o risco de alguma coisa dar errado, imagina se andar no caminho errado?
Dá mais errada ainda a vida, e as pessoas não confiam na gente.
Mostrei as promissórias ao delegado. Ele disse que nunca viu ninguém
fazer isso. Ele sabe que todo mundo é trabalhador na minha família.
Queria agora é tentar lutar para colocá-lo numa comunidade [terapêutica]
para se tratar. Já ofereceram vaga de graça. Como meu filho já tinha
pedido ajuda para ser internado, ele merece, não é?
Ninguém sabe detalhes da vida do último e mais importante líder do Quilombo dos Palmares
Reportagem Reinaldo Lopes |
O nome dele era Zumbi, mas talvez o certo fosse Zambi. Ele pode
ter nascido na África e ter sido trazido para cá à força, mas há quem
diga que ele era brasileiro e livre. Nem temos certeza de que ele era
filho de africanos – se ele nasceu no Brasil, é possível que seu pai
fosse africano e sua mãe, índia. Sua morte também é envolta em mistério.
Só não existem dúvidas a respeito de uma coisa: até seus adversários o
definiam como um homem forte, orgulhoso, inconformado com sua condição
social, que resolveu enfrentar seus algozes e libertar seu povo. E ele
foi longe nesse objetivo. O Quilombo dos Palmares deu trabalho ao
governo de Portugal.
O quilombo foi construído na serra da Barriga, uma área que hoje faz
parte do estado de Alagoas. O terreno era uma espécie de fortaleza
natural: tinha barrancos que dificultavam o acesso e palmeiras fazendo
uma espécie de muralha. Palmares surgiu por volta de 1580, quando
escravos que fugiam de Pernambuco e da Bahia construíram uma pequena
vila fortificada, onde eles podiam ser livres e estavam protegidos dos
soldados que capturavam e matavam os fugitivos dos engenhos de
cana-de-açúcar do litoral. No auge da ocupação, em 1670, o quilombo
teria chegado a 30 mil moradores – talvez esse número seja um exagero.
Mesmo depois da morte de Ganga-Zumba e de Zumbi, seus dois maiores
líderes, os escravos ainda resistiram até o ano de 1710.
Se os criadores do quilombo realmente vieram de um engenho, a grande
maioria deveria ser homem, pois as fazendas abrigavam poucas mulheres.
Talvez por isso, já nos primeiros anos de organização, o aglomerado de
fugitivos virou uma pedra no sapato dos portugueses. Volta e meia, os
habitantes de Palmares invadiam engenhos para libertar escravos, roubar
comida e armas e, principalmente, raptar mulheres. Em 1602, o
governador-geral do Brasil, Diogo Botelho, mandou uma expedição contra
eles. Foi a primeira das mais de 40 missões de ataque. Era difícil
vencer os escravos porque, quando as tropas chegavam, eles abandonavam a
cidade e se escondiam no mato.
Quando os holandeses invadiram o Nordeste, os engenhos de açúcar
perderam o controle sobre seus escravos e as fugas aumentaram. Palmares
recebeu milhares de novos moradores e, em 1654, quando os holandeses
foram expulsos, a vila tinha virado uma potência formada por vários
aglomerados populacionais, que vendiam e compravam produtos das cidades
vizinhas. Nessa fase, pode ser que até brancos tenham vivido dentro do
quilombo. E com certeza havia índios morando lá dentro ou por perto.
Escavações arqueológicas têm encontrado cerâmica indígena, provavelmente
da mesma época de Zumbi.
Crescimento
Essa confederação de povoados escolheu como chefe um guerreiro
conhecido como Ganga-Zumba, que morava em Macaco, a principal vila do
refúgio. Não se sabe se “Ganga-Zumba” seria nome próprio ou um título
dado ao líder. “A palavra ganga significava ‘poder’ ou ‘sacerdote’ em
várias sociedades da África central”, diz o historiador Flávio Gomes,
professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Para a maioria dos especialistas, foi nessa época de relativa
calmaria que Zumbi teria crescido em Palmares. Um dos motivos para
sustentar que o líder nasceu ali mesmo e não chegou depois, fugindo da
escravidão, é o fato de que ele seria sobrinho de Ganga-Zumba. Mas o
parentesco também não é garantido, já que a palavra “sobrinho” podia ter
um sentido simbólico.
Não há relatos confiáveis sobre a juventude de Zumbi. É em um
relatório do comando militar da capitania de Pernambuco, escrito por
volta de 1670, que seu nome aparece citado pela primeira vez. Ele seria o
homem de confiança do chefe Ganga-Zumba, uma espécie de general dos
exércitos de Palmares. Outros documentos da mesma época destacam a
capacidade militar de Zumbi. Um deles diz que, ao enfrentar uma
expedição liderada por Manuel Lopes Galvão, Zumbi levou um tiro na perna
que o teria deixado manco, mas ele continuou lutando mesmo assim.
Missões de ataque
Por volta de 1670, matar Ganga-Zumba e Zumbi virou questão de honra
para o governo português. Mas, em 1678, a raiva já tinha passado um
pouco. Cansado das derrotas seguidas, o governador-geral propôs um
acordo de paz. Ganga-Zumba aceitou, e deixou Palmares com algumas
centenas de seguidores. Ele morreu pouco tempo depois, e há quem diga
que foi Zumbi que mandou envenená-lo por ter abandonado seu povo. O novo
líder do quilombo não quis saber de trégua. Em 1690, o governo enviou o
bandeirante Domingos Jorge Velho para atacar a região. Apanhou na
primeira tentativa, mas voltou em 1692, com 9 mil homens e alguns
canhões. Depois de semanas de luta, os bandeirantes invadiram a capital
de Palmares. Zumbi fugiu. Ele só viveria mais um ano, até ser traído e
morto por um companheiro, Antônio Soares. Os bandeirantes deram ao corpo
de Zumbi o destino de várias outras pessoas que na época eram
consideradas traidoras da pátria. Seus olhos foram arrancados, sua mão
direita foi cortada e seu pênis foi decepado e enfiado em sua própria
boca. Já a cabeça foi salgada e levada para Recife, onde apodreceu em
praça pública.
A lenda do suicídio coletivo
Logo depois de se aproximar de Zumbi e cumprimentá-lo, o traidor
Antônio Soares o matou com uma punhalada. É assim que os historiadores
acreditam que o líder dos Palmares foi assassinado. Mas, antigamente,
existia uma outra explicação, bem mais dramática. “Até o início dos anos
60, os historiadores diziam que Zumbi e seus seguidores tinham cometido
suicídio ao se atirar dos penhascos da serra da Barriga”, diz o
historiador Flávio Gomes. Não é verdade, mas essa lenda pode ter surgido
por causa de uma das últimas batalhas da guerra de resistência. O
bandeirante Jorge Velho construiu uma muralha de apoio, em diagonal,
para levar seus canhões para perto do quilombo. A única forma de
atacá-la era subir por um barranco. Alguns quilombolas tentaram usar
essa estratégia para fazer um ataque-surpresa contra o bandeirante. Quem
era baleado rolava pelo barranco, o que pode ter dado a falsa impressão
de suicídio.
• A Hidra e os Pântanos, Flávio Gomes, Unesp, 2005. Compara os
quilombos do Brasil com outros grupos de rebeldes em outros países do
continente
• Palmares, Ontem e Hoje, Pedro Paulo Funari e Aline V. de Carvalho,
Jorge Zahar, 2005. Ótima introdução à história do quilombo. O professor
Funari trabalhou nas primeiras escavações feitas no local
A sina de Alfo
Alfo
era um ratinho muito prestativo que trabalhava para o Rei Leão. Era
alegre, brincalhão , amigo com o qual o rei podia contar vinte e quatro
horas por dia.
Mas com o passar do
tempo, Alfo foi ficando triste, pois vivia praticamente preso às suas
obrigações de ajudante-de-ordens, conselheiro, ombudsman, mão direita,
mensageiro, e não tinha tempo para mais nada. Por causa de sua índole
alegre e expansiva, o ratinho gostava de viver livremente. Por isso,
ultimamente, o seu emprego o desgostava muito; sentia-se escravo do
dever.
O ratinho Alfo tornava-se
cada vez mais sério, mais taciturno; nem as mais engraçadas piadas do
papagaio o faziam rir. Os bichos viviam fazendo-lhe graça para tentar
descontraí-lo e sugeriam com preocupação:
- Alfo, ria ! Rir faz bem !
- Alfo, ria ! Você está envelhecendo .
Mas quê ! Alfo foi ficando cada vez mais calado, até que um dia resolveu falar com o Rei.
- Senhor , não agüento
mais o peso das obrigações. Sou um ratinho sagitariano, quero viajar,
ser livre e o excesso de dever está me matando. Nem rir mais eu rio !
Todos vivem me pedindo : - Alfo, ria ! Você está muito triste ! - porque
percebem que estou ficando cada vez mais descontente !
- E o que você sugere, meu fiel amigo ?
- Que o senhor me libere
de serví-lo . Continuarei sendo seu melhor amigo, se quiser, seu
conselheiro, mas quero ser livre. Quero dormir de madrugada, acordar com
o sol no meu focinho, quero visitar novas florestas , mas trabalhando
assim como trabalho, não posso fazer nada disso !
- É, meu caro ratinho, você tem razão.
- Sabe, majestade, se eu
continuar trabalhando tanto, sem ter tempo para mim , vou me tornar
amargo . Por favor, liberte-me de minhas obrigações.
- Quem sou eu para ir
contra a personalidade de alguém ? Prefiro-o como um amigo alegre a um
fiel servidor triste. De hoje em diante, você está livre, Alfo.
Alfo ria sem parar. Estava realmente feliz e poderia fazer tudo aquilo que quisesse.
E foi a partir dessa
história, a história do ratinho Alfo que queria a libertação do pesado
jugo do trabalho, que nasceu a palavra alforria.”
"A
narrativa está presente em todos os lugares, em todas as sociedades; a
narrativa começa com a própria história da humanidade; não há, não há em
parte alguma, povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os
grupos humanos têm suas narrativas, e frequentemente estas narrativas
são apreciadas em comum por homens de cultura diferente, e mesmo oposta:
a narrativa ridiculariza a boa e a má literatura: internacional,
trans-histórica, transcultural, a narrativa está aí, como a vida." (Barthes, 1971, p. 19-20)
Narrar
é expor, por meio da fala ou da escrita, um acontecimento ou uma
sucessão de acontecimentos, mais ou menos encadeados, reais ou
imaginários. Assim temos a narrativa poética, a narrativa objetiva
(acontecimentos reais) e a narrativa de ficção (acontecimentos
imaginários). No caso da narrativa de ficção, usamos o termo "narração",
como designativo da prosa de ficção. Neste caso, a narração é uma
invenção, uma criação humana e, como tal, exige arte, técnica, e
imaginação. Enfim, a narração consiste no relato de acontecimentos ou
fatos que envolvem: um narrador que a conte, personagens que vivencie os
fatos narrados, um espaço em que se ambiente a história, uma trama
(conflitos), ação e o transcorrer do tempo em que a ação se desenvolve.
A Mentira Artística
O filho chega tarde a casa e o pai corre severo para ele:
— O que houve?
O
filho expõe (narra) um conjunto de fatos, de acontecimentos que lhe
servirão de desculpas. O objetivo dessa narrativa é o convencimento do
pai. De modo que o filho procura os acontecimentos que motivaram o
atraso (narrativa objetiva), ou os inventa (narrativa ficcional). Daí,
não é sem razão dizer-se que: "o primeiro filho mentiroso descobriu a arte da narrativa", que agrada mais e convence mais porque vai além dos fatos, além da realidade. "A mentira artística chama-se ficção".
A Narrativa de Ficção ou Narração
A
narrativa de ficção é construída, elaborada de modo a emocionar,
impressionar as pessoas como se fossem reais. Quando você lê um romance,
novela ou conto, por exemplo, sabe que aquela história foi inventada
por alguém e está sendo vivida de mentira por personagens fictícios. No
entanto, você chora ou ri, torce pelo herói, prende a respiração no
momento de suspense, fica satisfeito quando tudo acaba bem. A história
foi narrada de modo a ser vivida por você. Suas emoções não deixam de
existir só porque aquilo é ficção, é invenção. No "mundo da ficção"
a realidade interna é mais ampla que a realidade externa, concreta, que
conhecemos. Através da ficção podemos, por exemplo, nos transportar
para um mundo futuro, no qual certas situações que hoje podem nos
parecer absurdas, são perfeitamente aceitas como verdadeiras.
Os
contos de fadas, as fábulas, os desenhos animados, as narrativas
fantásticas, em que tudo pode acontecer, também, nos remetem a outra
realidade, bem mais ampla da que vivemos. Nestes casos, os textos
narrativos, apresentam uma lógica interna que acabamos aceitando como verdade. É o que alguns teóricos chamam de “suspensão voluntária da descrença”, para exemplificar essa suspensão, cito dois exemplos:
Em a Metamorfose, o tcheco Franz Kafka inicia a narrativa com o personagem Gregor Samsa transformado em um inseto (metáfora da condição humana em um mundo adverso, desumano):
“Certa
manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa viu-se em sua
cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas
costas duras como couraça, e ao erguer um pouco sua cabeça viu o seu
ventre marrom, abaulado divididos em saliências arqueadas (...).”
Já Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, dá voz a um defunto que narra logo no primeiro capítulo o seu óbito:
"Algum
tempo hesitei se deveria começar estas memórias pelo princípio ou pelo
fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha
morte. Suposto o uso vulgar começar pelo nascimento, duas considerações
me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou
propriamente um autor defunto, mas um defunto autor [...]."
Para
o leitor prosseguir na leitura dessas narrativas é necessário que ele
suspenda temporária e voluntariamente a sua descrença e aceite, como um
fato da realidade, uma personagem transformada em um inseto horroroso e
um defunto que resolve contar suas memórias.
Toda
narrativa de ficção transmite uma determinada visão da vida. É por essa
razão que as narrativas de ficção ou a ficção nos tocam tão de perto. ®Sérgio.
O que o aluno poderá aprender com esta aula: Conhecer e interpretar (por meio de fragmentos) a Carta a El Rei
D. Manuel, de Pero Vaz de Caminha, quando do descobrimento do Brasil; Identificar alguns elementos literários e históricos presentes na carta; Analisar, criticamente, elementos ideológicos e linguísticos presente na Carta; Produzir um texto do gênero carta descritiva.
Dom Quixote Engenheiros do Hawaii Composição: Humberto Gessinger / Paulo Galvão Muito prazer, meu nome é otário Vindo de outros tempos mas sempre no horário Peixe fora d'água, borboletas no aquário Muito prazer, meu nome é otário Na ponta dos cascos e fora do páreo Puro sangue, puxando carroça Um prazer cada vez mais raro Aerodinâmica num tanque de guerra, Vaidades que a terra um dia há de comer. "Ás" de Espadas fora do baralho Grandes negócios, pequeno empresário. Muito prazer me chamam de otário Por amor às causas perdidas. Tudo bem, até pode ser Que os dragões sejam moinhos de vento Tudo bem, seja o que for Seja por amor às causas perdidas Por amor às causas perdidas.
Questões:
O eu-lírico da canção se intitula "otário". Que relação pode-se estabelecer entre esse adjetivo e ao Dom Quixote da obra?
Dom Quixote era um sonhador. Relacione essa característica da personagem ao verso "Peixe fora d'água, borboletas no aquário".
Escreva o verso da canção que apresenta uma cena da obra lida.
Que sentido tem esse verso depois da frase "Tudo bem, até pode ser"?
O eu-lírico da canção sente-se "deslocado" do mundo em que vive. Como sentia-se Dom Quixote?
Você concorda que Dom Quixote também tinha amor "às causas perdidas"?
Analise sintaticamente e morfologicamente o texto musical.
Num
primeiro momento, falamos de Cervantes, criador de Dom Quixote e
Sancho Pança. . Se for
possível, vamos tentar agora uma interpretação do "engenhoso Fidalgo,
Dom Quixote de la Mancha" .
Observação
preliminar: "Dom Quixote" pode ser lido singelamente como se lê uma
estória. Talvez tenha sido assim que ele foi escrito: com a quase
ingênua jubilação de quem vai contando uma aventura, sem muita certeza
do que irá acontecer depois, deixando-se levar pelo improviso.
Cervantes teve real dificuldade de explicar por que tinha escrito
aquele livro, apesar de ele dizer isto num Prólogo cheio de intestinas
malícias. Teria ele, de fato, escrito o "Dom Quixote" para combater a
literatura cavalheiresca, como ficou dito no fim do livro pelo velho
fidalgo moribundo, retornando à razão e a um simples Alonso Quijano, o
Bom? Os melhores comentadores não crêem que isto deva ser levado a
sério, visto que, naquela época, os romances de cavalaria já estavam
completamente sem leitores... Talvez por isso, escreveu Lis Astrana
Martin (importantíssimo biógrafo de Cervantes) que "o Quixote é, sem
duvida, um livro de entretenimento e sem simbolismos, mas livro que se
tornou simbólico, livro de dor". (Citado em Vianna MOOG. Heróis da Decadência,
Rio, 1964, p. 103.) Por outro lado, já dizia Goethe a respeito do seu
"Fausto": "Perguntam-me que idéia eu procurei encarnar no meu Fausto.
Como se eu soubesse... Como se eu mesmo o pudesse dizer... " (Conversas com Eckermann,
dia 6/5/1827.) E ele pedia que não se quisesse sempre descobrir uma
idéia sublime, abstrata, simbólica, por detrás de toda história, só
porque essa história se tornou um grande livro da literatura mundial.
Essa idéia pode até existir, mas a gente não é sempre obrigado a ficar
procurando por ela.
Cervantes
pode não ter sido um gênio todos os dias de sua vida, o que, ao
contrário, parece ter acontecido com Platão, Shakespeare ou Goethe.
Talvez tenha razão Unamuno quando afirma que Cervantes foi um "gênio
temporário", nos momentos em que se deixava "tomar" pela alma de sua
gente. "Depois do Quixote e antes do Quixote, nada de genial" - pensa
Don Miguel de Unamuno. E mesmo durante a criação do Quixote, sua
genialidade era intermitente. Quando narrava, quando deixava o espírito
do povo falar, gênio. Se se punha a fazer crítica literária ou
filosofia por conta própria - manifestava uma verdadeira "opilação
intelectual". (Cf. UNAMUNO. Ensayos - V, p. 223.) Mas houve
Dom Quixote. Dom Quixote não é apenas a personagem "Quixote". É, pelo
menos, Sancho Pança também. Os dois expressam as duas faces da Espanha.
Mais até: as duas faces do homem. Todos nós, de uma forma ou de outra,
somos um pouco Quixotes e Panças. Fernando Collor ou Irmã Dulce.
Gorbatchev ou Karol Wojtyla. Esses são quixotes e sanchos públicos.
Mas, na vida privada ou municipal, você vai encontrá-los a todo momento,
no jovem que acaba de casar e acredita em moinhos de vento e
dulcinéias, mas se sente arrastado ao terra-a-terra pela resistente
realidade, ou na moça que entra para o convento e se entrega inteira ao
Cristo, aos pobres, ao Amor, ..
Não
interessa muito o que o autor tenha pensado de sua obra. O mais
provável é que Cervantes, como em geral os grandes autores, não tenha
percebido, com clareza, toda a importância de seu livro. O próprio
Goethe observa que é preciso ensinar ao criador o sentido daquilo que
ele criou... (Cf. Fitzmaurice, cit. em Vianna Moog, o.c., p. 102.) Uma
obra, uma vez escrita, começa a ter vida própria, independente de seu
autor. Sobretudo quando se trata de uma obra-prima como "Dom Quixote". O
que Cervantes queria ou não queria ao escrevê-la, é apenas, se se
puder conseguir uma resposta, uma questão histórica, passada. O que
vale "Dom Quixote", isto ele continuará valendo mesmo que não se lhe
conhecesse o autor.
Tocam a campainha e há um estrondo em meus ouvidos. A empregada estava de folga, o remédio era atender o mau-caráter que me batia à porta àquela hora da manhã. Vejo o camarada do bigodinho com o embrulho largo e enfeitado.
— É aqui que mora a senhorita Regina Celi?
Digo que não e fulmino o importuno com um olhar cheio de ódio e sono, mas antes de fechar a porta sinto alguma coisa de íntimo naquele “senhorita Regina Celi”, sim, há uma Regina Celi em minha casa, minha própria filha, mas apenas de 12 anos, uma guria bochechuda ainda, não merecia o título e a função de senhorita.
Chamo o homem que já estava no elevador. Eram CDs, a garota encomendara um mundão de CDs numa loja próxima, e pedira que mandassem as novidades, pois as novidades estavam ali, embrulhadinhas e com a nota fiscal bem às claras.
Gemo surdamente na hora de assinar o cheque e recebo o embrulho. A garota dormia impune, o mundo podia desabar, e ninguém a despertaria do sono 12 anos. Deixo o embrulho em cima do som e volto para a cama, forçar o sono e a tranquilidade interior, abalada pelo cheque tão matutino e fora de propósito. Quando ordeno os pensamentos e ambições no estreito espaço do meu pensamento e retomo um sono e um sonho sem cor nem gosto, começa o rock.
Anos atrás, seria começa o beguine. Mas o beguine passou de moda, e o swing, o mambo, o baião e outras pragas vindas de alheias e próprias pragas. Pois aí estava o rock, matinal, cor de sangue e metal inundando o dia e o quarto com sua voz rouca, seu compasso monótono e histérico.
Purgo honestamente meus pecados e lembro o pai, que me aturava a mania pelos sambas de Ary Barroso. O velho não dizia nada, mas me olhava fundo e talvez tivesse ganas de me esganar. Mas me aturava e aturava o meu Brasil brasileiro.
Hoje, aturo o rock. Vou ao banheiro, lavo o rosto, visto um short e vou para a sala disposto a causar boa impressão à senhorita Regina Celi, que de babydoll, esbaforida, se degringola ao som de U2.
O tapete já fora arrastado e amarfanhado a um canto. Meu castiçal de prata foi profanado com a cara de um tipo até simpático que naquela manhã ganhará alguma coisa à custa do meu labor e cheque.
A senhorita Regina Celi tem a cara afogueada, os pés e as pernas avançam e ficam no mesmo lugar, o corpo todo treme e sua, até que ela me estende o braço.
— Vem, papai!
O peso dos meus invernos e minhas banhas causa breve hesitação. Mas ali estamos, eu e a senhorita Regina Celi, uma menina que ainda pego no colo e aqueço com meu amor e o meu carinho, quando ela tem medo do mundo ou de não saber os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas na hora do exame. Ela me chama e me perdoa.
Então, aumento o volume do som, espero o tal do U2 dar um grito histérico e medonho - e esqueço o cheque, a vida e a faina humana rebolando este cansado corpo-pasto de espantos - até que o fôlego e o U2 acabem na manhã e no som.
Crônicas para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009
Cobrança
Moacyr Scliar
Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: "Aqui mora uma devedora inadimplente".
― Você não pode fazer isso comigo ― protestou ela.
― Claro que posso ― replicou ele. ― Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.
― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...
― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.
― Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...
― Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.
Neste momento começou a chuviscar.
― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar ficando doente.
Ele riu, amargo:
― E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.
― Posso lhe dar um guarda-chuva...
― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.
Ela agora estava irritada:
― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui.
― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você é devedora. Eu avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.
Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.
O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, é a história de um homem, acusado injustamente de traição (por um homem ciumento, que deseja roubar a sua amada Mercedes). É atirado na prisão por muitos anos. Enquanto na cadeia, Edmond Dantes conheceu um velho Senhor que lhe garantiu conhecer a posição de um grande tesouro escondido numa caverna na Ilha de Monte Cristo. Quando o velho morre, Edmond esconde-se dentro do saco(de colocar corpos), é atirado ao mar e escapa-se. Ele consegue unir-se a uma tripulação (uma vez que ele é marinheiro). Arranja um barco, vai até a ilha de Monte Cristo e consegue achar o tesouro.Ele utiliza a enorme riqueza para transformar-se em uma nova personalidade e vingar-se dos seus inimigos. É uma história maravilhosa, onde mais uma vez não há final feliz. Se você assistiu o filme de Hollywood, da mesma história, não leve em conta o seu final, porque é completamente diferente do seu clássico original. Este livro é fantástico.
Descobrir o mistério da ilha perdida. Era esse o ousado projeto dos irmãos Henrique e Eduardo. Porém, quando mal começava sua excursão, depois de atravessar o rio, os dois se viram tão perdidos quanto a própria ilha em que se encontravam.
Quem surpresas se escondiam por trás da densa mata que recobria toda a paisagem? Quem seria Simão, o solitário e enigmático habitante da ilha, que separou os dois meninos,levando Henrique para sua caverna?
E, afinal, Henrique era hóspede ou um prisioneiro?
Venha se perder nessa ilha fantástica de emoçãom e mágia.Pois garanto será melhor que o resumo.
Clarice Lispector reúne em "A Hora da Estrela" três abordagens fundamentais: filosófica, social e estética.
Pela perspectiva filosófica, enfoca os limites e alcances do conhecimento do mundo mediante a palavra e a consciência, através das quais o ser humano se diferencia dos outros seres; em relação ao social, investiga os impasses criados pela separação dos indivíduos em diferentes grupos, destacando o escritor e o nordestino. Quanto à estética, investiga o ato da criação e da originalidade.
A narrativa se estrutura a partir de um narrador-personagem que fala de si mesmo e de um narrador onisciente que conta a história de Macabéa.
Há trechos na obra de Clarice que parafraseiam ou lembram grandes autores da fase realista e modernista. Observe os fragmentos a seguir:
I - "E só minto na hora exata da mentira. Mas quando escrevo não minto." (Fernando Pessoa)
II - "Mas voltemos a hoje. Porque, como se sabe, hoje é hoje. Não estão me entendendo e eu ouço escuro que estão rindo de mim em risos rápidos e ríspidos de velhos."(Machado de Assis)
"É coisa muito séria e muito alegre: sua vida vai mudar completamente!"(Machado de Assis)
III - "Por Deus! Eu me dou melhor com os bichos do que com gente." (Graciliano Ramos)
IV - "Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui." (Manuel Bandeira)
"A Hora da Estrela" apresenta treze títulos que se desdobram na primeira página do livro:
A Hora da Estrela
A culpa é minha
ou
A Hora da Estrela
ou
Ela que se arranje
ou
O direito ao grito
Quanto ao futuro
ou
Lamento de um blue
ou
Ele não sabe gritar
ou
Uma sensação de perda
ou
Assovio no vento escuro
ou
Não posso fazer nada
ou
Registro dos fatos antecedentes
ou
História lacrimogênica de cordel
ou
Saída discreta pela porta dos fundos
Todos aparecem ao longo da narrativa, durante o processo de criação. Reúnem narrador, escritor e criação. É importante observar que apenas o 5º título é acompanhado por ponto final. Isto acontece porque a história a ser narrada contém segredos (um deles pode ser lido como "o que é o mistério da morte?") e também é a frase que Macabéa pronunciou antes de morrer.
A "Hora da Estrela" representa o momento epifânico de Macabéa: a hora da morte. É irônica porque só no momento da morte é que Macabéa alcança a grandeza do ser. Já a autora atinge a epifania ao concluir a obra. É a epifanização do tormento de escrever.
O narrador também é personagem principal porque, ao desenvolver a narrativa, mostrando-nos Macabéa, busca a própria identidade. Moldara Macabéa sobre o seu próprio destino e solidão, e morre com ela. Ao mesmo tempo, ele é um disfarce do "eu" da escritora.
A escritora e o narrador, usando as personagens Macabéa e Olímpico, tecem críticas a respeito do ato de falar, expressar-se, escrever, ler, interpretar. Macabéa possui um vocabulário restrito, cultura por flashes, baseada na memorização acrítica. Olímpico não tem consciência crítica para interrogar o código linguístico e aproximar-se das palavras sem conhecer o seu conceito.
A obra de Clarice Lispector pertence à Terceira Geração Modernista. Há o trabalho com o fluxo de consciência, com a linguagem; transita pelo plano metafísico (indagações existenciais), pelo inconsciente, pela autoanálise com projeções da filosofia existencialista.
Quem poderia imaginar que um acampamento se transformaria em uma aventura que exigiria muita coragem da turma para salvar uma civilização fadada ao desaparecimento? José Cláudio da Silva escreve "Pai, Posso Dar Um Soco Nele?", um livro que prende a atenção de pessoas de todas as idades, com uma leitura leve, divertida e gostosa.
Nessa obra, Victor Hugo nos apresenta algumas das mais contundentes questões e milenares para humanidade: a dificuldade em conviver - e aceitar - as diferenças e as desenfreadas ambições humanas para se conseguir aquilo que se quer.
Embora o personagem Quasímodo (o corcunda) seja a maior representação da dificuldade para aceitar alguém ou algo muito diferente, Victor Hugo nos mostra muitas outras no decorrer dessa leitura.
Na cidade de Paris, meados do século XV, na torre da catedral gótica mais famosa de toda Europa, vive Quasímodo, que significa domingo de pascoela, isto é, o domingo após a páscoa, o sineiro da catedral. Um homem de feições deformadas, membros detorcidos, porém sensível às manifestações da beleza em todas as suas nuances. Alguém que sofre muito por sua imposta solidão.
Quasímodo é um ser taciturno, que almeja sair para o mundo, ainda que este mundo seja o entorno da catedral de Notre Dame, onde se realizam diversas festividades.
Ele foi adotado, ainda criança, por Frollo, arcediago da catedral de Notre Dame. Um homem que por detrás de seu pseudo-moralismo e seriedade, possui uma personalidade vil, déspota e possessiva, um típico representante da santa inquisição.
Um homem com plenos poderes sobre a cidade e a sociedade em que vive?alguém que, cobrando eternamente a bondade de ter adotado Quasímodo, segundo ele, quando até sua própria mãe o rejeitou? e tendo-o criado na escuridão da torre de notre dame, faz do corcunda seu escravo, além de tentar destruir sua personalidade, igualando-o sempre a um monstro.
Durante uma das festividades nos arredores de notre dame, as quais Quasímodo sempre assiste do alto da torre, ocorre um pequeno distúrbio.
Observando as ocorrências, Quasímodo vê uma linda mulher envolvida na confusão?uma beleza, diferente,radiante. Alguém que com sua simples presença, lhe deu coragem? a mulher estava sendo presa, acusada de criminosa, sendo machucada.
E Quasímodo, pela primeira vez, em toda a sua vida, sai da catedral para salvar aquela que, ele descobre depois, chama-se Esmeralda. O povo vê a criatura que nunca tinha visto antes?e reage de forma animalesca. Quasímodo consegue, a princípio, salvar Esmeralda?completamente encantado por ela. Esmeralda, por sua vez, se encanta e se ressente pela situação imposta a Quasímodo. Afinal, eles são muito similares: sozinhos e considerados marginais pela sociedade,ele pela aparência, e ela por ser cigana, povo altamente repudiado pelo clero da época.
Apesar da atitude heróica de Quasímodo, Esmeralda é presa novamente. Na prisão, é torturada por um homem que se sente atraído sexualmente por ela: o arcediago Frollo. Ele a tortura e a machuca, pois em sua mente doentia, ela é a representação de satã ao despertar tais sentimentos e desejos num homem santo como ele?nesse ínterim, um nobre cavalheiro francês, tido como herói de guerra, chega à cidade. Conhece Quasímodo, se apaixona por Esmeralda e compra uma verdadeira guerra com Frollo, o todo poderoso local.
Daí por diante, com uma maestria única, Victor Hugo nos apresenta a uma infinidade de personagens, situações, emoções e sentimentos que nos fazem rir, chorar e nos emocionar. A queda do herói, quando Quasímodo conhece a verdadeira face? de Frollo, a manipulação pela religião de toda uma sociedade, o preconceito, a luxúria, o ódio e a paixão, permeiam essa grande história, dita fantasiosa, mas que em outros aspectos, ocorre até os dias de hoje. Trágica - sim, de certa forma - mas, acima de tudo, uma bela lição sobre coragem, luta e amor.
Um livro, literalmente, fantástico!
Entre os principais conteúdos cobrados nas provas de Literatura
dos vestibulares do País, se destaca o Romantismo. O movimento, que se
desenvolveu na Europa na virada dos séculos XVIII para XIX, teve início
no Brasil no ano de 1836, com a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães.
Para o professor Vanderlei Vicente, dos cursos Unificado e PV Sinos, o
vestibulando deve ter em mente algumas características da escola, como a
idealização das relações e do caráter humano, o sentimentalismo
exacerbado e, no Brasil, uma presença marcante do elemento indígena. O
professor selecionou cinco dos principais romances do período, para
ajudar a compreender a prosa romântica na literatura brasileira:
A Moreninha(1844), de Joaquim Manuel de Macedo- "Este
romance merece atenção do estudante, por ser considerado o primeiro
romance romântico brasileiro. Na obra, Augusto sente-se preso a uma
promessa de amor feita anos atrás, o que o torna inconstante frente a
outras possibilidades de relacionamento. Ao se apaixonar por Carolina,
ele tem a doce surpresa: ela era a menina com quem havia trocado juras
de amor no passado e que considerava digna de seu amor".
O Guarani(1857), de José de Alencar - "Este é o primeiro
romance de temática indianista publicado pelo autor, que estabelece uma
visão idealizada sobre a formação do povo brasileiro através do índio
Peri e da portuguesa Cecília. A idealização do indígena fica evidente
nas ações de Peri, que, em certo momento da obra, chega a oferecer-se
para o sacrifício para salvar sua amada Ceci. No final do romance, a
permanência de Ceci com Peri na selva dá um caráter fundador ao texto".
Inocência (1872), de Visconde de Taunay- "Uma das mais
exploradas temáticas do Romantismo é a do amor proibido. Essa é a tônica
do romance Inocência, que explora a paixão entre os personagens Cirino,
um falso médico que atendia no interior do Brasil; e Inocência, jovem
prometida por seu pai a um morador da região, Manecão Doca. Num desfecho
trágico, a morte de Cirino impede a consagração do amor e,
provavelmente, serve como motivador para a morte da melancólica
Inocência".
A Escrava Isaura(1875), de Bernardo Guimarães - "Este
romance apresenta a trajetória de Isaura, escrava paradoxalmente clara
que é perseguida por seu senhor, Leôncio. Após fugir para o Nordeste,
Isaura conhece e apaixona-se por Álvaro. O desfecho do romance é mais
que feliz: Álvaro liberta Isaura das mãos de Leôncio ao pagar dívidas
deste e tomar-lhe os bens. Vale lembrar que a obra obteve importância em
sua trajetória por tratar de um tema polêmico para a época: a
escravidão".
Memórias de um Sargento de Milícias(1853), de Manuel Antônio de Almeida
- "Publicado em pleno Romantismo, paradoxalmente, uma das principais
virtudes deste romance é o fato de ele fugir aos clássicos clichês
românticos. Leonardo, visto como uma espécie de anti-herói (o narrador
chega a afirmar que o protagonista escolhera ser um vadio), ascende na
hierarquia militar com o apoio do major Vidigal. Os personagens
apresentam valores questionáveis como se percebe na figura do padre (que
se envolve com uma cigana), na mãe de Leonardo (que abandona a família e
foge com um amante) ou mesmo de Vidigal (que ajuda Leonardo por ter
interesses pessoais envolvidos)".